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Resin Extraction

Resinagem em Portugal: Um Foco de Esperança

2018, Nov 13 João Duarte Barbosa, Agrotec 11 95

O setor da Resinagem em Portugal, depois das fulgentes décadas de 60, 70 e 80, e posterior declínio, parece voltar agora a despertar interesse para os profissionais do setor. A criação da primeira associação dedicada exclusivamente a esta fileira, a ResiPinus, é exemplo disso mesmo. Porém, com a área ardida nos últimos anos em território luso, é impossível pensar em voltar a atingir os mesmos valores nos próximos anos. Mas é também na prevenção e proteção das florestas que esta atividade gera interesse.

Portugal, que foi um dos líderes mundiais deste produto, tendo chegado a produzir 140.000 toneladas em 1984, contrastando com a modesta produtividade mais recente, de 6.000 tn em 2012, ou 4.500 tn em 2009. A resina é formada por várias substâncias (ácidos, álcool e óleo) e da destilação da resina obtêm-se dois produtos para a indústria de 1ª  transformação: a terebintina (ou aguarrás) e a colofónia (também conhecida por pez). Depois da matéria-prima transformada, ela passa por uma outra indústria (a de 2ª transformação), onde os produtos derivados terão como destino os mais diversos fins, desde a área da medicina e indústria farmacêutica até às borrachas, passando pela cosmética e até mesmo a indústria alimentar (pastilhas elásticas). Em Portugal a resinagem é feita no pinheiro-bravo e também no pinheiro-manso, sendo uma atividade regulamentada por lei.

Atualmente, em Portugal, existem 6 fábricas de 1ª transformação e o mesmo número de empresas na 2ª transformação. Na área do comércio e extração contam-se perto de 100 e, na atividade concreta da extração da resina, os denominados resineiros, existem cerca de 500. Segundo António Salgueiro, vice-presidente da ResiPinus, a produção total de resina em Portugal representa apenas 10% da necessidade de consumo do país. António Salgueiro é também administrador da GIFF S.A., uma empresa de gestão integrada de fogos florestais, e foi por esta via que entrou na atividade da resinagem, devido ao potencial desta na prevenção de incêndios, que tanto têm afetado o nosso país. Está na área da engenharia florestal desde finais da década de 80, tendo entrado no setor da resinagem há três. Por estar no setor por causa dos incêndios, não se considera o agente tradicional do mesmo. Através da criação de emprego e da gestão dos espaços florestais, António Salgueiro adianta que a resina pode e deve funcionar como um produto indireto que pague essa mesma gestão.

AGROTEC: Porquê o aparecimento de uma associação apenas em 2014?

António Salgueiro: Teria feito todo o sentido ter aparecido muito antes, até porque a atividade da resinagem já foi muito mais importante do que aquilo que é hoje em Portugal.
O pico máximo de produção/extração de resina em Portugal foi nos anos 80. Mais precisamente nos anos de 83, 84, e depois a atividade veio a cair. E caiu muito. Neste momento, há novamente um interesse e portanto é aproveitar em parte este novo interesse que existe pela atividade da resinagem, para tentarmos que os novos operadores que apareçam estejam enquadrados numa nova associação que os possa representar.

AG: Portugal já foi, como até já referiu, um dos maiores produtores de resina. Diz-se que esta queda deveu-se à entrada no mercado em força de alguns países com grande capacidade produtiva, como a China, que vieram também criar especulação e instabilidade no mercado. Foi este o factor originou a queda subsequente?

AS: Foram vários fatores. Um deles, como menciona, foi a forte concorrência mundial de alguns países, como a China, e a respetiva capacidade produtiva dos mesmos, mas eles não começaram a produzir resina nos anos 80, já a produziam antes. Um outro fator foi o facto de termos entrado para a Comunidade Europeia com o complexo de sermos um país com muita atividade no setor primário, os próprios operadores tinham algum complexo em relação a isso, e as pessoas abandonaram muito as atividades rurais. Essa é uma das razões. A outra razão é também a redução do preço da resina nos mercados mundiais e, uma das razões muito fortes, deveu-se aos incêndios florestais: tivemos muitos resineiros que pura
e simplesmente faliram porque perderam tudo num único incêndio. O investimento na resina é extremamente ingrato porque investe-se durante 6 ou 7 meses e realiza-se capital quando se vende a resina e muito do capital durante o período de maior risco de incêndios está nos pinhais e, portanto, se o pinhal arder, todo o investimento que foi feito até esse dia desaparece. E nós tivemos incêndios muito grandes nos anos 90 e sobretudo nos anos 2000. Isto foi sempre em crescendo e muitos dos resineiros perderam tudo o que tinham ganho muitas das vezes num único incêndio.

AG: E investimentos de anos, muitas das vezes…

AS: Sim, porque a perspetiva do resineiro é particular. Não é o tipo de operador que vai à banca pedir dinheiro para financiar o seu projeto. O que vai fazendo é: com o que consegue ganhar num ano, tenta no seguinte aumentar um pouco a área de incidência, e assim sucessivamente. Portanto, reinvestia o que ganhava mas sempre com o risco de poder perder tudo de repente, que foi o que aconteceu com um grande número deles. Ainda hoje é uma das principais limitações para o exercício da atividade. Existem duas grandes limitações (para além, obviamente, de outras de menor influência) na atividade da resinagem: uma delas são os incêndios florestais, porque se pode perder tudo num incêndio, e a falta de seguro da resina em caso de incêndio florestal. Nos não queremos “segurar” árvores, pois elas não são dos resineiros, normalmente elas são alugadas num contrato de parceria com os proprietários ou os representantes dos proprietários, o objetivo é “segurar” a resina: não é possível de momento no país e é um dos objetivos da associação, conseguir que as seguradoras se interessem pelo tema e que criem um seguro para este fim.

AG: E vê isso como algo exequível no curtoprazo? Existe abertura por parte das entidades interessadas?

AS: Sim, à partida será interessante. Nós temos seguradoras interessadas no tema, nós temos vindo a enviar informações sobre o que é a atividade, os números que ela envolve, os riscos, etc. Há interesse da parte das seguradoras. É um processo algo lento porque sempre que se pega num assunto novo, numa seguradora que não tenha especialistas dentro do setor, têm que estudar o mesmo, o que faz com que não seja possível acontecer de um dia para o outro. De qualquer forma, temos esperança, pois à partida parece um produto interessante, como todos os outros que existem no mercado, e temos esperança que as seguradoras venham a desenvolver um seguro neste sentido.

AG: Acredita que agora pode ser o ponto de reviravolta/rejuvenescimento do setor?

AS: Algum desenvolvimento vai ter e já está a ter, por várias razões: pelo preço do barril do petróleo, que tem influência. A partir do momento em que ocorreu a guerra do golfo e com tudo o que se seguiu, que acabou por levar à estabilização em alta do preço do petróleo. O petróleo tem alguns derivados que são concorrentes dos derivados da resina e portanto, enquanto o preço deste combustível se mantiver nestes níveis, à partida o valor da resina não estará em baixa. Um outro fator muito importante é cada vez mais a tendência dos consumidores por produtos renováveis e naturais: a resina é um desses produtos. Não tem nada de artificial na extração da resina e é um produto renovável. O pinheiro continua a crescer e a produzir resina. Portanto, é um produto que, se não for explorado, ele continua no pinheiro, mas sem qualquer rendimento, se o explorarmos, estamos a tirar um rendimento, para além do pinheiro produzir mais resina quando ele é resinado. É portanto um produto renovável, sustentável e que permite o desenvolvimento rural e a criação de emprego. E isso é o tipo de produtos que, felizmente, o mundo globalizado tem vindo a valorizar. Nesta perspetiva, tenho esperança que a resina venha a ser desenvolvida. Nós, em termos de país, não tempos qualquer aposta no setor da resina. Pura e simplesmente não existe, é um setor apenas ignorado. E mesmo agora quando se tem vindo a falar nestes últimos 2 ou 3 anos um pouco mais do setor, os nossos órgãos de decisão continuam a ignorá-lo, mas penso que os operadores, por eles próprios, venham a ter alguma perspetiva de crescimento, por várias razões, algumas delas por “más” razões, que é a falta de emprego no mundo rural.

AG: Vê esse fator como uma oportunidade?
AS:
Nós temos tido valores de desemprego muito altos no mundo rural, o que leva à existência hoje em dia de pessoas disponíveis para trabalhar. Contrariamente àquilo que a maioria das pessoas pensa, que a atividade da resina é muito dura e desagradável, nós, nas pessoas da empresa (GIFF) que enviamos para irem trabalhar para a resina, têm vontade de ficar a trabalhar na resinagem: não têm que cumprir horários, têm que cumprir objetivos, fazem-no como quiserem; trabalham dentro de áreas florestais e como tal têm uma atividade com a natureza, às vezes chove e outras vezes está demasiado sol, mas é uma atividade ao ar livre e portanto é uma atividade muito mais agradável do que muitas atividades que os atuais resineiros que estão a trabalhar connosco já tiveram noutros tempos. Portanto, por aí há também alguma esperança. O nosso Estado não tem apostado nada na resina nem na gestão florestal e, consequentemente, temos algumas áreas que são geridas pelo Estado e que não têm uma gestão adequada e não produzem a resina que poderiam produzir mas, em todo o caso, temos alguma possibilidade de crescimento, e temos uma indústria que precisa da nossa resina.
Nós produzimos neste momento menos de 10% da resina necessária para a indústria portuguesa, e portanto esta vai comprar a matéria-prima fora do país.

AG: E onde é que nós podemos vir a ser competitivos com países como o Brasil e a China, que têm apostado na resina e no seu desenvolvimento e investigação?
AS:
Sobretudo melhorar geneticamente as espécies para elas produzirem mais resina, mas esses países também estão a fazer um esforço muito grande em se industrializar e, se eles agora exportam matéria-prima, a perspetiva de futuro desses países não é de exportar a matéria-prima resina: é a de exportar produtos derivados da resina. A nossa indústria (europeia), já sente algumas dificuldades, e parece vir a sentir cada vez mais, no abastecimento.

E, se não for possível comprar resina, a indústria deixa simplesmente de existir. A resina é transformada em dois processos. Há uma primeira fase de destilação, onde é limpa e separada em dois produtos, a aguarrás e pez (ou colofónia). E depois esse pez dá origem a dezenas de derivados já numa indústria de segunda transformação. E nós temos das indústrias de 2ª transformação mais fortes a nível mundial ainda hoje. Daí a nossa expectativa e esperança é que, por um lado, saber que existe disponibilidade de mão-de-obra no mundo rural e por outro, a nossa indústria precisará cada vez mais, pensamos nós, da resina que cá é produzida.

AG: Há portanto uma oportunidade bem identificada…
AS:
E já temos um exemplo. Tem vindo a aumentar a produção em Portugal, ela aumentou cerca de 10% nos últimos 2 anos, mas temos a nossa vizinha Espanha, sobretudo na região de Castilha Leão, que apostou significativamente na resina, nunca deixando morrer a atividade, e a produção de resina espanhola naquela região triplicou nos últimos 4 anos. Onde as coisas estão mais estruturadas o crescimento tem sido exponencial. Aqui é mais lento devido essencialmente à falta de apoios e organização.

AG. Quais as grandes limitações que encontra?

AS: Algumas. A falta de gestão de muitas áreas de pinhal. Isso tem repercussões na produtividade e na produção de resina. Se nós tivermos muitas árvores por hectare e poucas árvores, de entre essas muitas, que possam ser resinadas, elas produzem pouca resina porque estão sob stresse, por terem demasiadas árvores por unidade de superfície.
É uma questão de densidade. Se nós tivermos 400 árvores por hectare e as 400 forem resinadas, nós temos uma determinada produção de resina por ano, se tivermos as mesmas 400 árvores resináveis, mas se tivermos 1000 árvores no mesmo espaço, existem 600 que não estão a ser resinadas, mas todas elas estão em competição umas com as outras pelos nutrientes e, portanto, esses povoamentos produzem logo menos resina do que se tivéssemos apenas aquelas 400 nesse espaço. A falta de gestão também tem implicações graves no risco de incêndio e, como em Portugal quando arde nunca é responsabilidade de ninguém, normalmente o resineiro se lá estiver, é o que paga mais, porque fica sem tudo o que lá tinha.

AG: Falou que a produção representa apenas 10% da necessidade de consumo no nosso país, portanto nem sequer se coloca para já a porta da exportação. É possível conseguirmos
preencher a necessidade de consumo interno?

AS: Não o conseguiremos. Os melhores povoamentos de pinheiro bravo perderam-se neste país com os incêndios dos últimos anos. Ainda temos o Pinhal de Leiria que tem, de facto, uma boa gestão e com pinheiros de boas dimensões. Do resto uma grande maioria perdeu-se. Nós perdemos cerca de 500.000 hectares de pinheiro bravo nos últimos 40 anos. Apesar de termos feitos muitos investimentos para proteger, plantar, etc, perdemos quase meio milhão de hectares, o que significa uma perda à volta de 30% da área de pinhal nestes últimos 40 anos. E perdemos os melhores povoamentos.

E portanto, nem que resinássemos todo o potencial que existe neste momento de pinheiro bravo no nosso país, já não conseguiríamos abastecer a indústria nacional.

 

AG: Então o objetivo passa por atingir que metas?

AS: Atingir os 20, 25% do abastecimento da indústria nacional.

AG: Em quantos anos?

AS: Em 4 ou 5 anos seria possível.

AG: Então é um objetivo bastante positivo...Será no mínimo dobrar a capacidade produtiva…

AS: Sim, mas a resina é das poucas atividades neste momento de que se fala no setor primário que se está a desenvolver que não tem qualquer apoio. Para conseguirmos uma
meta destas teria que existir algum apoio ao setor, senão levar-nos-á muito mais tempo.

AG: Partindo do princípio que se gerará apoios para a consecução dos objetivos no espaço temporal entre 4 e 5 anos, qual o limite na nossa capacidade produtiva? Com os 20% já atingimos o nosso limite ou é possível atingir posteriormente uma meta mais elevada?

AS: Depende. Neste momento, a legislação que existe, que é de 1957 e está completamente desatualizada (mas é a que existe, e temos que nos reger por ela), as multas são extremamente pesadas. Podemos até considerá-las como um roubo. Devido ao desfasamento da realidade e analisando aquilo que se pode ganhar com o custo que poderá originar uma infração. Na legislação atual, só podemos resinar árvores com um diâmetro de resinagem superior a 25 cm. Se nós tivermos uma boa gestão das áreas de pinhal daqui para a frente, e se tivermos cada vez menos incêndios, teremos cada vez mais povoamentos que neste momento não têm dimensão a entrar na fase que já podem ser explorados para esta
atividade e, assim, o aumento de produção pode ser gradual. Isto será possível apenas se invertermos o ciclo, que tem sido de perda de áreas em vez de ganhos. Algo que é difícil de acontecer…

AG: Portugal já foi um dos principais produtores de resina mundiais…

AS: Foi o 3º maior produtor a nível mundial nos anos 80. Produziu cerca de 140.000 toneladas de resina num ano. Nós nem que quiséssemos, hoje nunca conseguiríamos produzir
140.000 toneladas de resina: não temos pinhais para isso. E isto mudou em 30 anos…

AG. Ou seja, o grande problema não foi o aumento da concorrência externa, mas sim a deterioração da capacidade portuguesa.

AS: Atribuímos sempre à competição da China e etc. os problemas, o que em parte é verdade, porque a dada altura os preços da resina baixaram bastante, e isto teve uma importância
muito grande mas, nem que nós quiséssemos acompanhar, não conseguiríamos, pois fomos perdendo matéria-prima ao longo dos anos.

AG: Nesse sentido, e relativamente aos incêndios florestais, de que forma o setor da resinagem pode contribuir para a prevenção/combate aos fogos florestais?

AS: A grande vantagem está nos efeitos indiretos na atividade de uma empresa de resinagem, por isso é que na empresa que represento fomos para a resinagem.
Este país tem investido, de facto, alguma coisa em prevenção e, em combate, muita coisa, e não tem conseguido resolver os problemas f lorestais, bem pelo contrário.
Começámos a investir significativamente a partir da década de 2000 e os piores incêndios que tivemos foram a partir desse ano. Estamos com uma progressão direta entre custo e prejuízo. Cada vez se investe mais e cada vez temos mais áreas de valores interessantes completamente destruídas. O que é que a resina pode aqui fazer? Pode ser uma prevenção produtiva. A maior parte das ações preventivas de gestão de combustíveis que temos são um investimento diferido no tempo, e sem retorno financeiro. Investimos para proteger.

O incêndio pode ou não ocorrer. Nós com a resinagem pretendemos ter pessoas para fazer vigilância, que não são pagas para o fazer, andam a resinar e, com esta atividade, fazem vigilância, pelo menos as horas que lá estão. A própria atividade dessas pessoas, pelo pisoteio, pelas visitas à mesma árvore de forma periódica, já faz alguma gestão de combustíveis e nós, no nosso caso particular, damos formação de 1ª intervenção a incêndios aos resineiros.

Damos alguma formação às equipas de resineiros que temos, para que possam tentar apagar o incêndio o mais rápido possível, ou como comunicar prontamente às autoridades competentes. Eles estão a fazer uma atividade produtiva em que se espera algum retorno financeiro, quer para o proprietário dos pinhais quer para quem está a fazer a exploração e, acima de tudo, para os próprios resineiros que estão a exercer uma atividade remunerada e simultaneamente podem contribuir para ajudar a resolver o problema dos incêndios florestais. É esta a perspetiva que se pretende.

AG: Ou seja, aproveitar o potencial económico da atividade e usá-la em favor da prevenção…

AS: Exatamente. Um contributo para a sociedade em geral. Daí considerarmos que seria da maior justiça existir um apoio para a resinagem até porque o país gasta imenso dinheiro na prevenção e de forma inconsequente. Ao apoiar na resinagem o governo está a potenciar uma atividade produtiva, que tem valor acrescentado e é utilizada e transformada na indústria nacional. Outro aspeto interessante da resina é que praticamente todos os derivados da resina são exportados.

Fala-se muito no aumento das exportações do país, mas o aumento das exportações no país tem sido muitas vezes à custa de produtos derivados do petróleo. Mas nós para exportarmos derivados de petróleo temos que adquirir primeiro, porque não somos produtores desta matéria-prima. No caso da resina, isso não acontece, nós exportamos derivados
de resina, se conseguirmos que isso seja feito cada vez mais com resina produzida cá, o processo é integralmente interno.

AG: Existe alguma estratégia comunicacional para esta prevenção?

AS: Sim, já tivemos uma audiência na Secretaria de Estado, temos também apostado nos meios de comunicação social. Mas temo-nos deparado com alguma resistência e também
descrédito por parte dos órgãos competentes, que vêm a resina como uma atividade do passado e não de futuro, e tem sido difícil mudar essa mentalidade.

 

AG: E na Europa?

AS: Temos, por exemplo, o caso da vizinha Espanha, onde existem nas áreas resinadas contratos-programa, em que as outras atividades de âmbito florestal que têm que ser realizadas, como por exemplo o arranjo dos caminhos, o desbaste, e outras atividades de silvicultura, são adjudicadas às equipas de resineiros que trabalham nessas áreas, e isso fecha o ciclo: os resineiros fazem também parte da gestão, em vez de trabalharem 6-9 meses por ano trabalham o ano todo. Não é artificial, onde é necessário obter subsídios. E é isso que estamos a tentar fazer aqui também, só que a começar pela base.

AG: E relativamente aos produtos exportados?

AS: Nós não exportamos resina, exportamos produtos derivados da resina. Praticamente 100%. Os derivados da resina são usados em vários produtos, desde chiclets a endurecedores de pneus e perfumaria, que só se produzem lá fora, nós aqui transformamos e vendemos a essas empresas.

AG: Que futuro prevê para a atividade?

AS: Penso que, para haver um crescimento gradual do setor, existem dois pilares fundamentais: reunirmos as condições para uma gestão florestal eficiente, que permita ter uma prevenção eficiente e a existência de seguros que protejam os resineiros.

 

A sobrevivência desta fileira em Portugal desde os finais da década de 80 deveu-se sobretudo à resiliência e visão estratégica de algumas empresas do setor que, apesar da grande quebra de produção nacional, conseguiram se reposicionar e manterem a competitividade no mercado mundial.

Para Adriana Monteiro, Sócia Maioritária da Resal, a grande dificuldade desta atividade é a falta de matéria prima, dado “Portugal ter abandonado muito a resinagem nos últimos anos”,
juntando o facto de a importação também não ser fácil, afirmando que “os países maioritariamente exportadores, como o Brasil e a China, não estão neste momento a exportar”, devido à necessidade de abastecerem os respetivos mercados internos.

Manuel Barbeiro Costa, presidente do grupo Respol, relembra o facto de, na altura em que se iniciou nesta atividade, existirem “mais de 40 fábricas de resina. Hoje, restam três ou quatro.” Para o presidente daquele grupo, esta situação deve-se “ao custo de mão-de-obra e com a própria maneira de produzir, que se alterou”. Mas, no seu entender, a maior dificuldade que o setor enfrenta é a concorrência da China que “por vezes pratica preços muito elevados, outras vezes muito baratos. É preciso estar sempre à tona da água para sobreviver.” Adriana Monteiro concorda, afirmando que “a perda de força da resinagem em Portugal foi mais notória com o aparecimento da produção em grande escala por países como a China e Brasil”. A falta de recursos humanos para a resinagem era também um constrangimento, mas ambos os empresários mencionam que, nos últimos anos, tem aparecido mais gente com interesse em trabalhar no setor.

 

Um outro aspeto que reúne consenso por parte dos responsáveis destas empresas é a falta de uma política de gestão dos pinhais. Por um lado, o grande número de proprietários dos terrenos com pinhais em Portugal, que algumas vezes estão disponíveis para arrendar os pinhais e noutras não, o que gera um clima de incerteza e instabilidade. Por outro lado, reforçam a ideia da ResiPinus, e apontam o dedo à gestão ineficiente das Matas Nacionais por parte do Estado, que não tem uma política de aluguer dos pinhais e “vê o resineiro como inimigo, quando é o madeireiro quem corta a árvore”. A aposta em tecnologia e inovação é considerado um fator chave para a sobrevivência e sucesso nestas empresas. No caso da Respol, o grupo já investiu 5 milhões de euros nos últimos 10 anos em tecnologia e, para contornar o facto de Portugal se  encontrar numa zona geograficamente periférica, a empresa adquiriu, recentemente, uma fábrica na Finlândia, para “levar algumas das resinas que são produzidas cá para aquele país, valorizando o nosso produto e ultrapassando a questão dos transportes, que nos saem muito caros”.

O contributo para a prevenção contra incêndios e gestão florestal que a atividade da resinagem traz não é esquecida pelos empresários. Adriana Monteiro afirma que “além de gerar postos de trabalho e ajudar na economia nacional, é também importante a nível ambiental, pois ajuda a manter as florestas limpas.

A própria atividade laboral tem maior incidência no verão, o que contribui para uma forte vigilância nas alturas de maior risco deste tipo de flagelos ocorrer”. Manuel Costa acrescenta ainda que “a necessidade de visitar frequentemente (de 20 em 20 dias) cada árvore para extrair a resina, é também o que torna a mão-de-obra onerosa”.

Apesar dos constrangimentos, os empresários vêm o futuro com confiança, acreditando que o setor terá um crescimento gradual pois, se o setor crescer, todos ganham. Veem como os seus maiores concorrentes… os incêndios e o petróleo.

Para o resineiro, esta é uma atividade sazonal, que varia entre 6 a 9 meses, desenvolvida integralmente nos espaços florestais. O profissional desta atividade faz a limpeza de uma parte da casca do pinheiro para poder resinar e, posteriormente, com uma frequência regular (entre duas a quatro semanas), “visita” o mesmo pinheiro – é este o termo usado – para renovar, para abrir mais uma fiada e para aplicar uma pasta para promover a produção de resina. Rui Duarte é um desses resineiros, começou a trabalhar nesta área desde os 11 anos de idade, por intermédio do seu pai, que também era resineiro. É empresário em nome individual e exerce atividade na zona de Boticas, contando com mais cinco colaboradores nas alturas de maior intensidade laboral. O seu papel na cadeia de valor desta fileira concentra-se na extração da resina das árvores, armazenando-a dentro de recipientes e vendendo posteriormente para as fábricas que a transformam. Atualmente, vende maioritariamente para empresas de Albergaria e Leiria.

AG: Como caracteriza o exercício desta atividade? Quais as principais dificuldades e oportunidades que encontra?

Rui Duarte: É uma atividade que necessita de alguns conhecimentos técnicos, como por exemplo a desencarrasca – é uma das técnicas utilizadas para a primeira etapa de preparação do pinheiro para posterior extração da resina – implica algum desgaste físico, pois são oito horas diárias a caminhar por montes, muitas das vezes íngremes. Uma das principais dificuldades com que me debato todos os anos é nos meses de verão, devido ao flagelo dos incêndios, que têm atingido a região onde me encontro, não havendo qualquer tipo de apoio, seja económico ou social, nem investimento na renovação das áreas ardidas.

AG: Não mencionou oportunidades…
RD:
Porque, sinceramente, não me parecem existir. A continuar assim, é uma profissão em vias de extinção.

AG: Portugal já foi um dos principais produtores mundiais de resina, mas veio a perder essa liderança. Na sua opinião, qual o fator determinante para isto ter acontecido?

RD: A extinção do pinheiro bravo, quer por cortes, quer por incêndios, e a falta de replantação deste e também a falta de mão-de-obra disponível.

AG: O que deverá ser feito para contrariar esta situação?

RD: Maior apoio por parte das instituições governamentais, pois atualmente esta atividade é completamente esquecida. Existem apoios para a agricultura, pessoas individuais ou empresas, mas para quem investe na extração da resina nenhum apoio é facultado, mesmo quando existe um grande prejuízo, como por exemplo os incêndios, onde por vezes se
perde uma vida de trabalho.

AG: Que conselhos dá a quem pensa iniciar-se nesta atividade?

RD: Ponderar bem os prós e os contras, pois é uma atividade que não deve ser encarada como uma atividade fácil, pois existem algumas condicionantes, mesmo em termos de legislação.

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Resinagem em Portugal: Um Foco de Esperança

2018, Nov 14
O setor da Resinagem em Portugal, depois das fulgentes décadas de 60, 70 e 80, e posterior declínio, parece voltar agora a despertar interesse para os profissionais do setor. A criação da primeira associação dedicada exclusivamente a esta fileira, a ResiPinus, é exemplo disso mesmo. Porém, com a área ardida nos últimos anos em território luso, é impossível pensar em voltar a atingir os mesmos valores nos próximos anos. Mas é também na prevenção e proteção das florestas que esta atividade gera interesse. Portugal, que foi um dos líderes mundiais deste produto, tendo chegado a produzir 140.000 toneladas em 1984, contrastando com a modesta produtividade mais recente, de 6.000 tn em 2012, ou 4.500 tn em 2009. A resina é formada por várias substâncias (ácidos, álcool e óleo) e da destilação da resina obtêm-se dois produtos para a indústria de 1ª  transformação: a terebintina (ou aguarrás) e a colofónia (também conhecida por pez). Depois da matéria-prima transformada, ela passa por uma outra indústria (a de 2ª transformação), onde os produtos derivados terão como destino os mais diversos fins, desde a área da medicina e indústria farmacêutica até às borrachas, passando pela cosmética e até mesmo a indústria alimentar (pastilhas elásticas). Em Portugal a resinagem é feita no pinheiro-bravo e também no pinheiro-manso, sendo uma atividade regulamentada por lei. Atualmente, em Portugal, existem 6 fábricas de 1ª transformação e o mesmo número de empresas na 2ª transformação. Na área do comércio e extração contam-se perto de 100 e, na atividade concreta da extração da resina, os denominados resineiros, existem cerca de 500. Segundo António Salgueiro, vice-presidente da ResiPinus, a produção total de resina em Portugal representa apenas 10% da necessidade de consumo do país. António Salgueiro é também administrador da GIFF S.A., uma empresa de gestão integrada de fogos florestais, e foi por esta via que entrou na atividade da resinagem, devido ao potencial desta na prevenção de incêndios, que tanto têm afetado o nosso país. Está na área da engenharia florestal desde finais da década de 80, tendo entrado no setor da resinagem há três. Por estar no setor por causa dos incêndios, não se considera o agente tradicional do mesmo. Através da criação de emprego e da gestão dos espaços florestais, António Salgueiro adianta que a resina pode e deve funcionar como um produto indireto que pague essa mesma gestão. AGROTEC: Porquê o aparecimento de uma associação apenas em 2014? António Salgueiro: Teria feito todo o sentido ter aparecido muito antes, até porque a atividade da resinagem já foi muito mais importante do que aquilo que é hoje em Portugal.O pico máximo de produção/extração de resina em Portugal foi nos anos 80. Mais precisamente nos anos de 83, 84, e depois a atividade veio a cair. E caiu muito. Neste momento, há novamente um interesse e portanto é aproveitar em parte este novo interesse que existe pela atividade da resinagem, para tentarmos que os novos operadores que apareçam estejam enquadrados numa nova associação que os possa representar. AG: Portugal já foi, como até já referiu, um dos maiores produtores de resina. Diz-se que esta queda deveu-se à entrada no mercado em força de alguns países com grande capacidade produtiva, como a China, que vieram também criar especulação e instabilidade no mercado. Foi este o factor originou a queda subsequente? AS: Foram vários fatores. Um deles, como menciona, foi a forte concorrência mundial de alguns países, como a China, e a respetiva capacidade produtiva dos mesmos, mas eles não começaram a produzir resina nos anos 80, já a produziam antes. Um outro fator foi o facto de termos entrado para a Comunidade Europeia com o complexo de sermos um país com muita atividade no setor primário, os próprios operadores tinham algum complexo em relação a isso, e as pessoas abandonaram muito as atividades rurais. Essa é uma das razões. A outra razão é também a redução do preço da resina nos mercados mundiais e, uma das razões muito fortes, deveu-se aos incêndios florestais: tivemos muitos resineiros que purae simplesmente faliram porque perderam tudo num único incêndio. O investimento na resina é extremamente ingrato porque investe-se durante 6 ou 7 meses e realiza-se capital quando se vende a resina e muito do capital durante o período de maior risco de incêndios está nos pinhais e, portanto, se o pinhal arder, todo o investimento que foi feito até esse dia desaparece. E nós tivemos incêndios muito grandes nos anos 90 e sobretudo nos anos 2000. Isto foi sempre em crescendo e muitos dos resineiros perderam tudo o que tinham ganho muitas das vezes num único incêndio. AG: E investimentos de anos, muitas das vezes… AS: Sim, porque a perspetiva do resineiro é particular. Não é o tipo de operador que vai à banca pedir dinheiro para financiar o seu projeto. O que vai fazendo é: com o que consegue ganhar num ano, tenta no seguinte aumentar um pouco a área de incidência, e assim sucessivamente. Portanto, reinvestia o que ganhava mas sempre com o risco de poder perder tudo de repente, que foi o que aconteceu com um grande número deles. Ainda hoje é uma das principais limitações para o exercício da atividade. Existem duas grandes limitações (para além, obviamente, de outras de menor influência) na atividade da resinagem: uma delas são os incêndios florestais, porque se pode perder tudo num incêndio, e a falta de seguro da resina em caso de incêndio florestal. Nos não queremos “segurar” árvores, pois elas não são dos resineiros, normalmente elas são alugadas num contrato de parceria com os proprietários ou os representantes dos proprietários, o objetivo é “segurar” a resina: não é possível de momento no país e é um dos objetivos da associação, conseguir que as seguradoras se interessem pelo tema e que criem um seguro para este fim. AG: E vê isso como algo exequível no curtoprazo? Existe abertura por parte das entidades interessadas? AS: Sim, à partida será interessante. Nós temos seguradoras interessadas no tema, nós temos vindo a enviar informações sobre o que é a atividade, os números que ela envolve, os riscos, etc. Há interesse da parte das seguradoras. É um processo algo lento porque sempre que se pega num assunto novo, numa seguradora que não tenha especialistas dentro do setor, têm que estudar o mesmo, o que faz com que não seja possível acontecer de um dia para o outro. De qualquer forma, temos esperança, pois à partida parece um produto interessante, como todos os outros que existem no mercado, e temos esperança que as seguradoras venham a desenvolver um seguro neste sentido. AG: Acredita que agora pode ser o ponto de reviravolta/rejuvenescimento do setor? AS: Algum desenvolvimento vai ter e já está a ter, por várias razões: pelo preço do barril do petróleo, que tem influência. A partir do momento em que ocorreu a guerra do golfo e com tudo o que se seguiu, que acabou por levar à estabilização em alta do preço do petróleo. O petróleo tem alguns derivados que são concorrentes dos derivados da resina e portanto, enquanto o preço deste combustível se mantiver nestes níveis, à partida o valor da resina não estará em baixa. Um outro fator muito importante é cada vez mais a tendência dos consumidores por produtos renováveis e naturais: a resina é um desses produtos. Não tem nada de artificial na extração da resina e é um produto renovável. O pinheiro continua a crescer e a produzir resina. Portanto, é um produto que, se não for explorado, ele continua no pinheiro, mas sem qualquer rendimento, se o explorarmos, estamos a tirar um rendimento, para além do pinheiro produzir mais resina quando ele é resinado. É portanto um produto renovável, sustentável e que permite o desenvolvimento rural e a criação de emprego. E isso é o tipo de produtos que, felizmente, o mundo globalizado tem vindo a valorizar. Nesta perspetiva, tenho esperança que a resina venha a ser desenvolvida. Nós, em termos de país, não tempos qualquer aposta no setor da resina. Pura e simplesmente não existe, é um setor apenas ignorado. E mesmo agora quando se tem vindo a falar nestes últimos 2 ou 3 anos um pouco mais do setor, os nossos órgãos de decisão continuam a ignorá-lo, mas penso que os operadores, por eles próprios, venham a ter alguma perspetiva de crescimento, por várias razões, algumas delas por “más” razões, que é a falta de emprego no mundo rural. AG: Vê esse fator como uma oportunidade?AS: Nós temos tido valores de desemprego muito altos no mundo rural, o que leva à existência hoje em dia de pessoas disponíveis para trabalhar. Contrariamente àquilo que a maioria das pessoas pensa, que a atividade da resina é muito dura e desagradável, nós, nas pessoas da empresa (GIFF) que enviamos para irem trabalhar para a resina, têm vontade de ficar a trabalhar na resinagem: não têm que cumprir horários, têm que cumprir objetivos, fazem-no como quiserem; trabalham dentro de áreas florestais e como tal têm uma atividade com a natureza, às vezes chove e outras vezes está demasiado sol, mas é uma atividade ao ar livre e portanto é uma atividade muito mais agradável do que muitas atividades que os atuais resineiros que estão a trabalhar connosco já tiveram noutros tempos. Portanto, por aí há também alguma esperança. O nosso Estado não tem apostado nada na resina nem na gestão florestal e, consequentemente, temos algumas áreas que são geridas pelo Estado e que não têm uma gestão adequada e não produzem a resina que poderiam produzir mas, em todo o caso, temos alguma possibilidade de crescimento, e temos uma indústria que precisa da nossa resina.Nós produzimos neste momento menos de 10% da resina necessária para a indústria portuguesa, e portanto esta vai comprar a matéria-prima fora do país. AG: E onde é que nós podemos vir a ser competitivos com países como o Brasil e a China, que têm apostado na resina e no seu desenvolvimento e investigação?AS: Sobretudo melhorar geneticamente as espécies para elas produzirem mais resina, mas esses países também estão a fazer um esforço muito grande em se industrializar e, se eles agora exportam matéria-prima, a perspetiva de futuro desses países não é de exportar a matéria-prima resina: é a de exportar produtos derivados da resina. A nossa indústria (europeia), já sente algumas dificuldades, e parece vir a sentir cada vez mais, no abastecimento. E, se não for possível comprar resina, a indústria deixa simplesmente de existir. A resina é transformada em dois processos. Há uma primeira fase de destilação, onde é limpa e separada em dois produtos, a aguarrás e pez (ou colofónia). E depois esse pez dá origem a dezenas de derivados já numa indústria de segunda transformação. E nós temos das indústrias de 2ª transformação mais fortes a nível mundial ainda hoje. Daí a nossa expectativa e esperança é que, por um lado, saber que existe disponibilidade de mão-de-obra no mundo rural e por outro, a nossa indústria precisará cada vez mais, pensamos nós, da resina que cá é produzida. AG: Há portanto uma oportunidade bem identificada…AS: E já temos um exemplo. Tem vindo a aumentar a produção em Portugal, ela aumentou cerca de 10% nos últimos 2 anos, mas temos a nossa vizinha Espanha, sobretudo na região de Castilha Leão, que apostou significativamente na resina, nunca deixando morrer a atividade, e a produção de resina espanhola naquela região triplicou nos últimos 4 anos. Onde as coisas estão mais estruturadas o crescimento tem sido exponencial. Aqui é mais lento devido essencialmente à falta de apoios e organização. AG. Quais as grandes limitações que encontra? AS: Algumas. A falta de gestão de muitas áreas de pinhal. Isso tem repercussões na produtividade e na produção de resina. Se nós tivermos muitas árvores por hectare e poucas árvores, de entre essas muitas, que possam ser resinadas, elas produzem pouca resina porque estão sob stresse, por terem demasiadas árvores por unidade de superfície.É uma questão de densidade. Se nós tivermos 400 árvores por hectare e as 400 forem resinadas, nós temos uma determinada produção de resina por ano, se tivermos as mesmas 400 árvores resináveis, mas se tivermos 1000 árvores no mesmo espaço, existem 600 que não estão a ser resinadas, mas todas elas estão em competição umas com as outras pelos nutrientes e, portanto, esses povoamentos produzem logo menos resina do que se tivéssemos apenas aquelas 400 nesse espaço. A falta de gestão também tem implicações graves no risco de incêndio e, como em Portugal quando arde nunca é responsabilidade de ninguém, normalmente o resineiro se lá estiver, é o que paga mais, porque fica sem tudo o que lá tinha. AG: Falou que a produção representa apenas 10% da necessidade de consumo no nosso país, portanto nem sequer se coloca para já a porta da exportação. É possível conseguirmospreencher a necessidade de consumo interno? AS: Não o conseguiremos. Os melhores povoamentos de pinheiro bravo perderam-se neste país com os incêndios dos últimos anos. Ainda temos o Pinhal de Leiria que tem, de facto, uma boa gestão e com pinheiros de boas dimensões. Do resto uma grande maioria perdeu-se. Nós perdemos cerca de 500.000 hectares de pinheiro bravo nos últimos 40 anos. Apesar de termos feitos muitos investimentos para proteger, plantar, etc, perdemos quase meio milhão de hectares, o que significa uma perda à volta de 30% da área de pinhal nestes últimos 40 anos. E perdemos os melhores povoamentos. E portanto, nem que resinássemos todo o potencial que existe neste momento de pinheiro bravo no nosso país, já não conseguiríamos abastecer a indústria nacional.   AG: Então o objetivo passa por atingir que metas? AS: Atingir os 20, 25% do abastecimento da indústria nacional. AG: Em quantos anos? AS: Em 4 ou 5 anos seria possível. AG: Então é um objetivo bastante positivo...Será no mínimo dobrar a capacidade produtiva… AS: Sim, mas a resina é das poucas atividades neste momento de que se fala no setor primário que se está a desenvolver que não tem qualquer apoio. Para conseguirmos umameta destas teria que existir algum apoio ao setor, senão levar-nos-á muito mais tempo. AG: Partindo do princípio que se gerará apoios para a consecução dos objetivos no espaço temporal entre 4 e 5 anos, qual o limite na nossa capacidade produtiva? Com os 20% já atingimos o nosso limite ou é possível atingir posteriormente uma meta mais elevada? AS: Depende. Neste momento, a legislação que existe, que é de 1957 e está completamente desatualizada (mas é a que existe, e temos que nos reger por ela), as multas são extremamente pesadas. Podemos até considerá-las como um roubo. Devido ao desfasamento da realidade e analisando aquilo que se pode ganhar com o custo que poderá originar uma infração. Na legislação atual, só podemos resinar árvores com um diâmetro de resinagem superior a 25 cm. Se nós tivermos uma boa gestão das áreas de pinhal daqui para a frente, e se tivermos cada vez menos incêndios, teremos cada vez mais povoamentos que neste momento não têm dimensão a entrar na fase que já podem ser explorados para estaatividade e, assim, o aumento de produção pode ser gradual. Isto será possível apenas se invertermos o ciclo, que tem sido de perda de áreas em vez de ganhos. Algo que é difícil de acontecer… AG: Portugal já foi um dos principais produtores de resina mundiais… AS: Foi o 3º maior produtor a nível mundial nos anos 80. Produziu cerca de 140.000 toneladas de resina num ano. Nós nem que quiséssemos, hoje nunca conseguiríamos produzir140.000 toneladas de resina: não temos pinhais para isso. E isto mudou em 30 anos… AG. Ou seja, o grande problema não foi o aumento da concorrência externa, mas sim a deterioração da capacidade portuguesa. AS: Atribuímos sempre à competição da China e etc. os problemas, o que em parte é verdade, porque a dada altura os preços da resina baixaram bastante, e isto teve uma importânciamuito grande mas, nem que nós quiséssemos acompanhar, não conseguiríamos, pois fomos perdendo matéria-prima ao longo dos anos. AG: Nesse sentido, e relativamente aos incêndios florestais, de que forma o setor da resinagem pode contribuir para a prevenção/combate aos fogos florestais? AS: A grande vantagem está nos efeitos indiretos na atividade de uma empresa de resinagem, por isso é que na empresa que represento fomos para a resinagem.Este país tem investido, de facto, alguma coisa em prevenção e, em combate, muita coisa, e não tem conseguido resolver os problemas f lorestais, bem pelo contrário.Começámos a investir significativamente a partir da década de 2000 e os piores incêndios que tivemos foram a partir desse ano. Estamos com uma progressão direta entre custo e prejuízo. Cada vez se investe mais e cada vez temos mais áreas de valores interessantes completamente destruídas. O que é que a resina pode aqui fazer? Pode ser uma prevenção produtiva. A maior parte das ações preventivas de gestão de combustíveis que temos são um investimento diferido no tempo, e sem retorno financeiro. Investimos para proteger. O incêndio pode ou não ocorrer. Nós com a resinagem pretendemos ter pessoas para fazer vigilância, que não são pagas para o fazer, andam a resinar e, com esta atividade, fazem vigilância, pelo menos as horas que lá estão. A própria atividade dessas pessoas, pelo pisoteio, pelas visitas à mesma árvore de forma periódica, já faz alguma gestão de combustíveis e nós, no nosso caso particular, damos formação de 1ª intervenção a incêndios aos resineiros. Damos alguma formação às equipas de resineiros que temos, para que possam tentar apagar o incêndio o mais rápido possível, ou como comunicar prontamente às autoridades competentes. Eles estão a fazer uma atividade produtiva em que se espera algum retorno financeiro, quer para o proprietário dos pinhais quer para quem está a fazer a exploração e, acima de tudo, para os próprios resineiros que estão a exercer uma atividade remunerada e simultaneamente podem contribuir para ajudar a resolver o problema dos incêndios florestais. É esta a perspetiva que se pretende. AG: Ou seja, aproveitar o potencial económico da atividade e usá-la em favor da prevenção… AS: Exatamente. Um contributo para a sociedade em geral. Daí considerarmos que seria da maior justiça existir um apoio para a resinagem até porque o país gasta imenso dinheiro na prevenção e de forma inconsequente. Ao apoiar na resinagem o governo está a potenciar uma atividade produtiva, que tem valor acrescentado e é utilizada e transformada na indústria nacional. Outro aspeto interessante da resina é que praticamente todos os derivados da resina são exportados. Fala-se muito no aumento das exportações do país, mas o aumento das exportações no país tem sido muitas vezes à custa de produtos derivados do petróleo. Mas nós para exportarmos derivados de petróleo temos que adquirir primeiro, porque não somos produtores desta matéria-prima. No caso da resina, isso não acontece, nós exportamos derivadosde resina, se conseguirmos que isso seja feito cada vez mais com resina produzida cá, o processo é integralmente interno. AG: Existe alguma estratégia comunicacional para esta prevenção? AS: Sim, já tivemos uma audiência na Secretaria de Estado, temos também apostado nos meios de comunicação social. Mas temo-nos deparado com alguma resistência e tambémdescrédito por parte dos órgãos competentes, que vêm a resina como uma atividade do passado e não de futuro, e tem sido difícil mudar essa mentalidade.   AG: E na Europa? AS: Temos, por exemplo, o caso da vizinha Espanha, onde existem nas áreas resinadas contratos-programa, em que as outras atividades de âmbito florestal que têm que ser realizadas, como por exemplo o arranjo dos caminhos, o desbaste, e outras atividades de silvicultura, são adjudicadas às equipas de resineiros que trabalham nessas áreas, e isso fecha o ciclo: os resineiros fazem também parte da gestão, em vez de trabalharem 6-9 meses por ano trabalham o ano todo. Não é artificial, onde é necessário obter subsídios. E é isso que estamos a tentar fazer aqui também, só que a começar pela base. AG: E relativamente aos produtos exportados? AS: Nós não exportamos resina, exportamos produtos derivados da resina. Praticamente 100%. Os derivados da resina são usados em vários produtos, desde chiclets a endurecedores de pneus e perfumaria, que só se produzem lá fora, nós aqui transformamos e vendemos a essas empresas. AG: Que futuro prevê para a atividade? AS: Penso que, para haver um crescimento gradual do setor, existem dois pilares fundamentais: reunirmos as condições para uma gestão florestal eficiente, que permita ter uma prevenção eficiente e a existência de seguros que protejam os resineiros.   A sobrevivência desta fileira em Portugal desde os finais da década de 80 deveu-se sobretudo à resiliência e visão estratégica de algumas empresas do setor que, apesar da grande quebra de produção nacional, conseguiram se reposicionar e manterem a competitividade no mercado mundial. Para Adriana Monteiro, Sócia Maioritária da Resal, a grande dificuldade desta atividade é a falta de matéria prima, dado “Portugal ter abandonado muito a resinagem nos últimos anos”,juntando o facto de a importação também não ser fácil, afirmando que “os países maioritariamente exportadores, como o Brasil e a China, não estão neste momento a exportar”, devido à necessidade de abastecerem os respetivos mercados internos. Manuel Barbeiro Costa, presidente do grupo Respol, relembra o facto de, na altura em que se iniciou nesta atividade, existirem “mais de 40 fábricas de resina. Hoje, restam três ou quatro.” Para o presidente daquele grupo, esta situação deve-se “ao custo de mão-de-obra e com a própria maneira de produzir, que se alterou”. Mas, no seu entender, a maior dificuldade que o setor enfrenta é a concorrência da China que “por vezes pratica preços muito elevados, outras vezes muito baratos. É preciso estar sempre à tona da água para sobreviver.” Adriana Monteiro concorda, afirmando que “a perda de força da resinagem em Portugal foi mais notória com o aparecimento da produção em grande escala por países como a China e Brasil”. A falta de recursos humanos para a resinagem era também um constrangimento, mas ambos os empresários mencionam que, nos últimos anos, tem aparecido mais gente com interesse em trabalhar no setor.   Um outro aspeto que reúne consenso por parte dos responsáveis destas empresas é a falta de uma política de gestão dos pinhais. Por um lado, o grande número de proprietários dos terrenos com pinhais em Portugal, que algumas vezes estão disponíveis para arrendar os pinhais e noutras não, o que gera um clima de incerteza e instabilidade. Por outro lado, reforçam a ideia da ResiPinus, e apontam o dedo à gestão ineficiente das Matas Nacionais por parte do Estado, que não tem uma política de aluguer dos pinhais e “vê o resineiro como inimigo, quando é o madeireiro quem corta a árvore”. A aposta em tecnologia e inovação é considerado um fator chave para a sobrevivência e sucesso nestas empresas. No caso da Respol, o grupo já investiu 5 milhões de euros nos últimos 10 anos em tecnologia e, para contornar o facto de Portugal se  encontrar numa zona geograficamente periférica, a empresa adquiriu, recentemente, uma fábrica na Finlândia, para “levar algumas das resinas que são produzidas cá para aquele país, valorizando o nosso produto e ultrapassando a questão dos transportes, que nos saem muito caros”. O contributo para a prevenção contra incêndios e gestão florestal que a atividade da resinagem traz não é esquecida pelos empresários. Adriana Monteiro afirma que “além de gerar postos de trabalho e ajudar na economia nacional, é também importante a nível ambiental, pois ajuda a manter as florestas limpas. A própria atividade laboral tem maior incidência no verão, o que contribui para uma forte vigilância nas alturas de maior risco deste tipo de flagelos ocorrer”. Manuel Costa acrescenta ainda que “a necessidade de visitar frequentemente (de 20 em 20 dias) cada árvore para extrair a resina, é também o que torna a mão-de-obra onerosa”. Apesar dos constrangimentos, os empresários vêm o futuro com confiança, acreditando que o setor terá um crescimento gradual pois, se o setor crescer, todos ganham. Veem como os seus maiores concorrentes… os incêndios e o petróleo. Para o resineiro, esta é uma atividade sazonal, que varia entre 6 a 9 meses, desenvolvida integralmente nos espaços florestais. O profissional desta atividade faz a limpeza de uma parte da casca do pinheiro para poder resinar e, posteriormente, com uma frequência regular (entre duas a quatro semanas), “visita” o mesmo pinheiro – é este o termo usado – para renovar, para abrir mais uma fiada e para aplicar uma pasta para promover a produção de resina. Rui Duarte é um desses resineiros, começou a trabalhar nesta área desde os 11 anos de idade, por intermédio do seu pai, que também era resineiro. É empresário em nome individual e exerce atividade na zona de Boticas, contando com mais cinco colaboradores nas alturas de maior intensidade laboral. O seu papel na cadeia de valor desta fileira concentra-se na extração da resina das árvores, armazenando-a dentro de recipientes e vendendo posteriormente para as fábricas que a transformam. Atualmente, vende maioritariamente para empresas de Albergaria e Leiria. AG: Como caracteriza o exercício desta atividade? Quais as principais dificuldades e oportunidades que encontra? Rui Duarte: É uma atividade que necessita de alguns conhecimentos técnicos, como por exemplo a desencarrasca – é uma das técnicas utilizadas para a primeira etapa de preparação do pinheiro para posterior extração da resina – implica algum desgaste físico, pois são oito horas diárias a caminhar por montes, muitas das vezes íngremes. Uma das principais dificuldades com que me debato todos os anos é nos meses de verão, devido ao flagelo dos incêndios, que têm atingido a região onde me encontro, não havendo qualquer tipo de apoio, seja económico ou social, nem investimento na renovação das áreas ardidas. AG: Não mencionou oportunidades…RD: Porque, sinceramente, não me parecem existir. A continuar assim, é uma profissão em vias de extinção. AG: Portugal já foi um dos principais produtores mundiais de resina, mas veio a perder essa liderança. Na sua opinião, qual o fator determinante para isto ter acontecido? RD: A extinção do pinheiro bravo, quer por cortes, quer por incêndios, e a falta de replantação deste e também a falta de mão-de-obra disponível. AG: O que deverá ser feito para contrariar esta situação? RD: Maior apoio por parte das instituições governamentais, pois atualmente esta atividade é completamente esquecida. Existem apoios para a agricultura, pessoas individuais ou empresas, mas para quem investe na extração da resina nenhum apoio é facultado, mesmo quando existe um grande prejuízo, como por exemplo os incêndios, onde por vezes seperde uma vida de trabalho. AG: Que conselhos dá a quem pensa iniciar-se nesta atividade? RD: Ponderar bem os prós e os contras, pois é uma atividade que não deve ser encarada como uma atividade fácil, pois existem algumas condicionantes, mesmo em termos de legislação.